Devo dizer que este vídeo me causa um fascínio fetichista: uma coletânea de imagens censuradas de filmes antigos de Hollywood. É inevitável, pelo menos para mim, pensar que toda esta gente morreu há muito tempo e estão materializados aqui como espectros. Todo filme Expressionista que eu vejo eu fatalmente penso nisto, e sempre acho uma grande coincidência que nós estejamos aqui, neste momento, existindo.
“Ai, ai, simples mortais”, como diria o poderoso Marduk antes de ser completamente esquecido.

O artista Maurizio Cattelan tem um trabalho fenomenal que é um Adolph Hitler rezando. Lembrei disto imediatamente quando vi esta foto, uma das raras coloridas de Hitler. Entendo esta foto como um poderoso paradoxo ou uma fábula hiperconcentrada, formando um gracioso quadrilátero. De um lado, as crianças, cujos focos de atenção deixam clara a artificialidade daquela situação, fantasiadas de como crianças mimosas deveriam ser, na visão daquele contexto histórico. De outro, a descoloração da foto, que tem um poder afetivo sobre qualquer pessoa com mais de 33 anos. Na outra ponta, a postura apática e a expressão desajeitada de Adolfo e, no último córner deste quadrilátero ambíguo, o histórico do referido senhor, e sua total incongruência com a imagem em questão.

Teratonia ao vivo.

Iandra Cattani em Teratonia. Foto Carolina Hilário. Tratamento de imagem M. Klamt.


A Influência de Francis Bacon sobre os Veículos Automotores Brasileiros.

Francis Bacon - Study for Bullfight No.1

Talvez o que mais caracterize a Ío seja o humor. Mas, certamente, um humor que não pode ser classificado como engraçado - de modo geral não tem força nem para arquear o canto dos lábios. Emprega a ironia como principal instrumento, mas também se apóia em oxímoros e humor negro. Mas o que nos interessa no humor é a apropriação da estrutura da piada. Isto é, uma narrativa inusitada que se constrói e subitamente tem um ponto inesperado de ruptura, onde normalmente está a graça e é o instante em que o ouvinte toma consciência das relações internas da piada. Não é casual que o Osho usava, com freqüência, piadas em suas palestras. A percepção de que uma piada é uma homeopática epifania, que tem estreita correlação com estados mais complexos de consciência como, por exemplo o kensho* budista ou a êxtase católica ou um It Lispectoriano, é o que nos interessa como método de uso. Uma percepção que ocorre em um tempo exíguo em que os múltiplos sentidos se conectam e que seja engraçado, mas sem graça, é nossa ambição. Vamos a uma análise de caso ilustrativa: no espetáculo SAÍDA DE EMERGÊNCIA, de 2004-06, havia um vídeo com o título quilométrico (referência humorística aos títulos de capítulos de Cândido, de Voltaire, ou Don Quixote, em que o enunciado de modo geral antecipa tudo que acontecerá no mesmo) de A Influência de Francis Bacon sobre os Veículos Automotores Brasileiros. Obviamente que Francis Bacon não é aquele precursor da ciência moderna (ao qual alguns maledicentes imputavam a obra de Shakespeare), mas o pintor. Em nossos translados a nosso retiro Garibaldense (uau, que bucólico), percebemos que os animais mortos e sucessivamente atropelados nas estradas acabavam tomando a forma de figuras à la Francis Bacon. Disto surgiu a disposição de fazer um vídeo com o irônico titulo supracitado, como se o pintor britânico influenciasse esteticamente os motoristas brazucas em suas ações assassinas motorizadas, tornando as estradas, assim, um amplo espaço expositivo, obviamente macabro.
Io - Still do vídeo "A Influência.."

Pós escrito:
Para aqueles que buscam significados transcendentais na Ironia ou na sincronicidade, no dia em que iríamos começar a gravação do vídeo, nossa gata Pimponeta foi atropelada e morta.
Boa diversão aos que tem o hobby de procurar significados nas complexas relações aleatórias de eventos dissociados, e encontrar nisto um significado simbólico.

*Kensho refere-se à primeira percepção da Natureza Búdica ou Verdadeira Natureza, algumas vezes conhecida como "acordar". Diferentemente do satori, que se refere a um estado de iluminação mais profundo e duradouro, o Kensho não é um estado permanente de iluminação, mas uma visão clara da natureza última da existência.


Princípio da Incerteza para o óbito de célebres escritores




Já que no mesmo Post (acima) foram citados, casualmente, Cervantes e Shakespeare, dois cavaleiros que tenho em alta conta como heróis existenciais, vamos a uma curiosa curiosidade (pleonasmo meu): é fato notório que ambos morreram no dia 23 de Abril. Contudo, é importante perceber que o Calendário Gregoriano já era utilizado na Espanha desde o século XVI, enquanto que na Inglaterra, que desconfiava deste golpismo temporal católico (Kepler ironizava a adoção do novo calendário por “estar em desacordo com o Sol e estar de acordo com o Papa”), utilizava, ainda, o Calendário Juliano. A adoção do calendário Gregoriano pelos britânicos deu-se somente em 1751, isto é, mais de 150 anos depois. Assim, em 1582, o Papa Gregório XIII, aconselhado pelos astrônomos, decretou pela bula Inter gravissimas que quinta-feira, 4 de Outubro de 1582 seria imediatamente seguido de sexta-feira 15 de Outubro. Logo, nesta matemática obtusa, Miguel de Cervantes e Shakespeare faleceram no dia 23 de abril, contudo com onze dias de diferença. Em relação à mudança do calendário Juliano para o Gregoriano, fico imaginando alguns boêmios que, saindo para uma noite de beberagem no dia 4 de outubro de 1582, acordaram apenas no dia 15 (isto é, no dia seguinte).

Teratofilia

Max Ernst, do livro Une Semaine De Bonté

Tentar definir Teratofilia já parece em si um certo equívoco - a palavra deve ser um neologismo, pois não encontrei a mesma em nenhum dicionário formal e, apesar de existir na wikipédia, ainda não há um link disponível. Referências webísticas, que são a única fonte de aparecimento da palavra, são poucas, repetitivas e divergentes. Ora apontam Teratofilia como “desejo e excitação por pênis grandes” (em que o grau de excitabilidade está diretamente relacionado à monumentalidade do membro), ora como “atração por pessoas deformadas e o monstruoso”. Vamos considerar especulativamente a palavra Teratofilia, para o bem da retórica, como uma ficção, uma palavra ainda inexistente, e tentar definir seu significado neste quadro, partindo da segunda definição. É necessário primeiro precisar as palavras “monstruoso” e “deformado” para tentar entender Teratofilia. As definições são, respectivamente:
1 Que tem qualidade ou natureza de monstro. 2 Que é contrário à ordem regular da natureza. 3 De grandeza extraordinária. 4 Que excede quanto se devia esperar. 5 Muito feio, repulsivo. 6 Que excede tudo que se possa imaginar de mau.
1 Mudar a forma de, tornar(-se) disforme. 2 Reproduzir inexatamente: O repórter deformou o pensamento do entrevistado.
Dentro destas definições, Teratofilia poderia ser definido como uma atração pelo irregular nos padrões naturais, tanto em forma quanto em dimensões (claro que, agregado a isto, a idéia de muito feio ou repulsivo). Porém, sabemos que isto é um padrão absolutamente relativo - tomando a beleza feminina como modelo, e analisando-a no decorrer da história, comprova-se isto com veemência. Este link exemplifica algo que cumpre alguns estatutos de beleza e no futuro próximo (agora, por exemplo) será visto como uma bizarrice dos nossos tempos.

A Bela e a Fera, de Jean Cocteau

Meu argumento é que a monstruosidade é cultural, social e pessoal, logo, não um valor universal (o que na verdade nada é, culturalmente falando) ou consensual. Que a Teratofilia seria um apreço intenso por estas rupturas, por esta diversidade formidável (veja post http://grupo-io.blogspot.com/2009/06/neologismo.html). Por sistemas e ordenações mais complexos de beleza. Também é considerável a influência no nosso imaginário estético dos deuses e criaturas fantásticas, teratônicas que herdamos da mitologia da antiguidade Suméria, Babilônica, Egípcia, Grego-Romana, das fábulas européias, dos quadrinhos de super-heróis ou do cinema. Podemos pegar um exemplo bem familiar, como a Bela e a Fera (que ficou notória pela versão da Disney). A Bela pode ser considerada uma Teratofílica (tu vê, heim?) Ou o filme Crash do David Cronenberg, pura Teratofilia
E não podemos desconsiderar a definição "Que excede tudo que se possa imaginar de mau" nesta argumentação.
A maldade tem seu inevitável grau de sedução. Um certo mistério desajustado e cruel com seu quê de Anjo Exterminador, presente, ora em doses homeopáticas, ora alopáticas, nas relações de sedução e no sexo em si, ecoando nas suas ordenações de poder e de dominação que são combustíveis do fetiche e com inclinação para serem fascinantes e sexy. O próprio demônio, com sua incontestável luxúria monstruosa, povoou o imaginário erótico de gerações de moças e senhoras de formação cristã. Logo, todo o mundo a leste da Rússia. Mais contemporaneamente, temos o fetiche por vampiros, criaturas que personificam os extremos de fascínio, medo, beleza, crueldade e poder.

Recorrência


Na minha puberdade (palavra já praticamente em desuso), eu sonhava recorrentemente com infestações que ocorriam em alguma partes específicas de meu corpo, anunciado assim, para breve, um estado patológico mais complexo. Eram pequenos bastonetes em uma área de 4 a 6 centímetros quadrados que indicavam o contágio. Outras vezes era um contágio sutil, quase psicológico, que evoluiria para uma devastadora enfermidade. Embora o recorte histórico deste comentário dê-se nos anos 80, em momento algum estes sonhos evoluíam para a melecância (neologismo meu) que caracterizava os contágios no imaginário cinematográfico do período. De modo geral era uma pequena evidência, que no decorrer do sonho ameaçava-me com a possibilidade de desaparecimento gradual ou o homizidiamento de minha consciência ante este invasor. Quando encontrei a imagem acima nos meus arquivos me lembrei destes sonhos (apesar de, admito, possuir uma certa melecância). Não tenho a menor idéia do que ela representa, nem pretendo especular sobre isto. No entanto, olhando-a ela me causa uma mistura de horror e fascínio. Por estranho que pareça, a palavra portuguesa que melhor exprime este sentimento é formidável. A definição dicionarizada de formidável é: algo admirável, impressionante, de forma incomensurável, mas, também, pavoroso, terrível e amedrontador (apesar de todos nós sabermos não ser este o seu uso corriqueiro no Brasil).

Teratonia

Foto épica galante dos grupos imagéticos sonoros Ío, input_output e Temper Faktor.
Escalação da Foto:
Fernando Bakos., Munir Klamt, Douglas Dickel, Laura Cattani e Eduardo Bichinho.
.
Dias 2 e 3 do mês vindouro, às 20:30 horas (Brasília como referência) no inigualável Goethe-Institut na rua 24 de Outubro, 112, os três grupos supracitados reencarnam na forma de Teratonia. O grupo Ío com sua formação já clássica Munir Klamt, Laura Cattani e um convidado exteriorano, o Excelentíssimo Senhor Doutor Fabrício Pereira Prado. Estrelando, também, Iandra & Luiza em uma performance de alta restrição física.
Mas o que diabos é Teratonia?
O limite de toda era passa por indecisões e turbulências. É quando acertos, mas também erros, se multiplicam. É quando surgem anomalias, surgem equívocos, surgem monstros. Há períodos em que existe o justo, o belo, o razoável, o correto. Em outros não.
Não ficou claro?
Dúvidas atrozes ainda martirizam seu ser?
Então frua este elucidativo link.

Jimmy Scott ( Série associação Fonética I )

video

Episódio Final de Twin Peaks


Nesta série de 3 pequenos posts unidos por associação fonética serão apresentados três cavaleiros que fazem parte da genealogia da Ío - afinal parentescos se dão, inevitavelmente, por sangue – mas também pelo o conjunto de idéias que nos seduzem pela vida (assunto que será tema de outro post), o que alguns chamam de “Minha Personalidade”.
A Ío, que até hoje nós não sabemos precisamente o que é, eventualmente encarna a forma de uma agremiação musical. Nesta encarnação, ela tem dois vocalistas, mas nós sempre vemos as músicas da Ío cantadas de diversas formas e timbres, como se cada música contasse sua história ou ponto de vista e precisasse de um protagonista individual - o que sempre buscamos emular. Em condições ideais de pressão e saúde financeira Jimmy Scott seria um deles (caso estejas curioso, Nelson Gonçalves, Mike Patton e David Bowie (depois dos cinquenta anos) seriam alguns dos outros).
Introduzimos aqui, então, o primeiro dessa série, o Sr. Jimmy Scott. Jimmy Scott, de família pobre e pai alcoólatra, tinha a síndrome de Kallmann, em decorrência da qual seu corpo produzia uma quantidade reduzida de testosterona, o que alterou o seu crescimento, seu olfato e influenciou a sua voz, deixando-o com um estranho timbre de soprano.
Conhecemos Jimmy Scott no episódio de encerramento do seriado Twin Peaks, onde ele aparece cantando no Salão Negro (vide o vídeo acima). A música, composta por David Lynch, está na trilha de Fire Walk With Me - baixe aqui caso queira.
Esta cena tem um impacto suplementar, em função de todo o conjunto de eventos que cercam a circunstância de seu reaparecimento ser fantástico – após cantar no funeral de um amigo, pela primeira vez em décadas, e ter sido reconhecido por Lou Reed, essa performance é a que marca a volta de Scott, que tivera um longo período fora dos palcos, frustrado com o fracasso, durante o qual trabalhou como funcionário em um hospital e ascensorista de elevador. Este é um caso, como o de David Byrne ressuscitando a carreira de Tom Zé, que trabalhava em um posto de gasolina, e Jim Jarmuch, que trouxe de volta aos palcos Screamin’ Jay Hawkings, que vivia então em um estacionamento de trailers, em que devemos agradecimentos à Lynch por ter trazido-o de volta a uma carreira que se revelou ainda mais impressionante (ele continua cantando, atualmente com 84 anos).
De resto veja o vídeo e no final diga:
-Putaquiopariu.

' video

Jimmy Scott: "Sometimes I Feel Like A Motherless Child”

Legenda Áurea, Nirvana e sua construção de Mundo.


Legenda Áurea. A vida dos Santos - dê um exemplar para o grupo Ío, envie para:
Alberto Bins 591/ap 61 Cep 90030-142 Centro Porto Alegre RS. A/C Munir Klamt.


Este maravilhoso livro, chamado Legenda Áurea (que é um dos nossos sonhos de consumo), conta a vida dos santos, assunto que interessa de sobremaneira a Ío (vide este post). Se, por ventura, você acha isto anacrônico, ultrapassado, quadrado, nada-a-vê, você provavelmente está certo. Contudo*, um dos primeiros historiadores da arte, Giorgio Vasari, publica em 1550 “Le Vite de' più Eccellenti Pittori, Scultori e Architettori”, onde ele registra a vida de alguns artistas do Renascimento. O modelo estrutural que ele toma de empréstimo para organizar este compendio é? Ah? É? A vida dos santos. Sim senhor. Este formato acaba se consagrando, e é válido até hoje. Por exemplo, quando você pensa no Van Gogh, Modigliani, James Dean, Kurt Cobain, você está ecoando mentalmente a construção destas mitologias através da ordenação proposta por Vasari. É sua cabecinha cristã, que você nem sabe que tinha, ordenando o mundo.

Vídeo forçando despudoradamente a tese deste post:

video

* (uma das grandes alegrias da vida é a conjunção adversativa)

(Da série) O que diabos é Corpus Christi?


Ok, feriadão. Pra quem não sabe, o feriado é de Corpus Christi, que é a ascensão corpórea de Cristo aos céus. Depois da páscoa, evento que marca sua crucifixão e ressureição(obrigado Clarissa) - tecnologia que cristo já havia treinado com Lázaro - embora desconheça se a dita ressureição foi engenho de suas artes ou atitude de seu pai. Mas provavelmente foi uma auto-ação, ainda mais considerando a ausência da figura paterna, em uma fase mais contida, no novo testamento. Afinal, deus agita o pedaço no velho testamento – dilúvios, genocídios, holocausto nuclear (Sodoma e Gomorra), primogenicídio (se é que existe tal palavra) no Egito, contabilizando mais de 2 milhões de mortos (na verdade 2.391.421). Satã matou 10 na mesma Bíblia, sério (obviamente a sua preocupação com a imagem pública era bem maior). Caso queira ver o placar completo e o local destes embates clique aqui.
Mas, voltando ao assunto, que aqui é a ascensão de Cristo, depois de sua ressureição-reencarnação (terminologia complicada neste caso, uma vez que Jesus volta, teoricamente, no mesmo corpo, porém nem mesmo seus apóstolos o reconhecem imediatamente) passa 40 dias na terra (coincidentemente o mesmo período que ele passou no deserto) e sobe aos céus – detalhe: COM seu corpo, e esse que é o grande lance. A partir deste evento, seu corpo, na Terra, passa a existir através da transubstanciação da eucaristia. Isto é, a hóstia, aquele objeto minimalista que representa simbolicamente o corpo e o sangue de cristo. O que argumentativamente nos torna, cristãos no geral, uma espécie de vampiro ao ingerir com tanta devoção este corpo e este sangue. Caso você tenha tido a paciência de ler até aqui e pense:
Io kéko?
Leia o próximo post.

Mãe


Série Trágica, na qual Flávio de Carvalho desenha
os últimos momentos do estertor de sua mãe.

Aqui o relato no Estado de S. Paulo sob o título de: NA PROCISSÃO, UMA EXPERIÊNCIA SOBRE A PSICOLOGIA DAS MULTIDÕES DA QUAL RESULTOU SÉRIO DISTÚRBIO. Domingo, às 15 horas, quando desfilava pelas ruas do centro da cidade a procissão de Corpus Christi, um rapaz muito bem posto, que se achava na esquina da rua Direita e Praça do Patriarca, não se descobriu, conservando ostensivamente seu chapéu na cabeça. Os crentes, que acompanhavam o cortejo, revoltaram-se com esta atitude e exigiram em altos brados que ele se descobrisse. Ele, no entanto, sorrindo para a turba, não tirou o chapéu, embora o clamor da multidão já se tivesse transformado em franca ameaça. Foi então que inúmeros populares tentaram linchá-lo, investindo contra ele. O rapaz pôs-se em fuga, ocultando-se na Leiteria Campo Bello, situada à rua São Bento, até onde foi perseguido pelos mais exaltados. O sub-delegado de plantão na Polícia Central compareceu ao local, onde deu garantias ao moço, protegendo-o contra a ira do povo. Na Polícia Central para onde foi conduzido, declarou a vítima da exaltação popular o engenheiro Flávio de Carvalho, de 31 anos de idade, residente à Praça Oswaldo Cruz, 1. Nas suas declarações, disse que há tempos se vem dedicando a estudos sobre a psicologia das multidões e tem mesmo alguns trabalhos inéditos sobre a matéria. Para melhor orientação dos seus estudos, resolvera fazer uma experiência sobre a "capacidade agressiva de uma massa religiosa à resistência das forças das leis civis, ou determinar se a força da crença é maior do que a força da lei e do respeito à vida humana"

Lyncha! Lyncha! Lyncha!


Tapetes feitos para a procissão de Corpus Christi. Nas cidades de tradição açoriana eles são de pétalas de flores.


No dia de Corpus Christi de 1931, o artista Flávio de Carvalho realizou a experiência número 2, que consistia em andar no sentido contrário à procissão de Corpus Christi usando um boné, um boné verde de veludo.
Você, na sua ausência de perspectiva histórica, talvez esteja dizendo: - Grandes merda.
No entanto, na provinciana São Paulo de 1931, manter um boné ostensivamente na cabeça, durante uma procissão ou na igreja, era acintosamente agressivo.
Resumo dos eventos: Flávio de Carvalho teve que fugir da multidão e foi salvo pela polícia. Para constar, a turba enlouquecida gritava ensandecidamente:
Lyncha, Lyncha, Lyncha... (que, na época, era escrito assim mesmo)



Capa da segunda edição do livreto em que Flávio de Carvalho contava o evento da Experiencia número 2.

!!!


Prêmio Açorianos, visto bem de perto (mais precisamente, da mesa de centro da nossa sala)

5.000 anos atrás e seus efeitos sobre o agora, agora.

O carneiro aprisionado no matagal (figura de 4.500 anos, na verdade.
É que 5.000 soa melhor).

Figura de Oferenda do Vale do Ur, região anteriormente conhecida como Suméria (agora Iraque ocupado). Tipo de representação imagética e de aglutinação de poder obscuro, no qual tentamos justificar o post seguinte. Esta estátua é conhecida popularmente(?) como O carneiro aprisionado no matagal.


Região Autónoma dos Açores


Troféu Galho Fumante. Foto:Fabio Del Re

O grupo Ío foi indicado ao prêmio Açorianos de Artes Plásticas na categoria Mídias Técnológicas pela exposição Zede Etes - O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes no Porão do Paço Municipal. A cerimônia de premiação acontecerá no dia 8 de maio, às 20h, no Teatro Renascença. E, como dizia Ernesto Souza (em relação à corrida de cavalos, claro): aposte no azarão pois, se por um lado as chances de ganhar são quase nulas, por outro, no caso de uma eventual vitória, fica demonstrado a todos os seus pares que, através de uma acurada percepção de um conjunto de eventos, aparentemente não relacionados e invisíveis a todos os outros, que indicavam o desenlace inesperado, você foi o único a vislumbrar tal hipótese; e onde o maior prêmio (considerando que o dinheiro consome-se a si mesmo) é o seu regojizo pessoal (neste caso, metaforicamente falando, o prêmio dos apostadores é o compartilhamento de nossa boa fortuna).

O Administrador Apagado na Revista Cidade B

Página Interna da Revista Cidade B. Foto:Munir Klamt

A terceira fase do projeto O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes, com o adorável nome de O Administrador Apagado, tem como plataforma inicial de lançamento as páginas da revista Cidade B número 14. Procure a revista, leia o texto e se informe. Mais indicações, curiosidades ou pistas no blog do Administrador Apagado.

Atração Magnética

Tales. Foto: Munir Klamt

Há alguns dias surgiu, quase por acaso, este objeto de fetiche: a elegante (friso meu) composição de imãs e lâminas de canivete. O que me fascina nesta composição singela (deve ter uns doze centímetros) é, fora seu equilíbrio estético (e que eu olho sem parar), a junção das partes pelo magnetismo. Em retrospectiva para aqueles que chegaram agora no planeta Terra, magnetismo é aquele negócio que Tales de Mileto (século VI A.C) em uma de suas viagens a Magnésia na Asia (então província Grega) descobriu chutando pedrinhas mas, tal qual brinquedo de criança, não servia para nada, fora ser um fenômeno curioso. Não que os animais não usassem há picas eras para orientação geodésica (aves migratórias, por exemplo). Só no Século XIII é utilizado para fazer a bússola, e o mundo como você o conhece hoje se deve a isto. Pulamos 600 anos e Maxwell cria a teoria moderna do electromagnetismo, segundo a qual eletricidade e magnetismo estão intimamente unidos (casualmente, dois semideuses da minha cosmogamia de mistérios da existência) e propagam-se à velocidade da luz. Daí para motores elétricos, bobinas e dínamos foram alguns tropeções, e novamente estamos diante do mundo como você o conhece ( fora que Maxwell está diretamente ligado, em base teórica, à televisão). Não que esta historicidade esteja neste objeto (embora esteja de certa forma), mas a junção das lâminas por algo invisível me fascina de uma maneira quase mística.
Pintura de Tiradentes por Pedro Américo.

E o Tiradentes?
É um post de efemeridades, sim, mas fora isto quando eu vi este objeto (que precisa de um nome provisório, talvez Tales) me lembrei imediatamente deste bizarro quadro do Pedro Américo (mais conhecido pela Primeira Missa do Brasil e o Grito da Independência), que criou certo constrangimento entre seus contemporâneos, e fiquei pensando sempre relacionalmente os dois, como uma união invisível entre ambos, algum tipo de livre associação que, como diria o marquês de Valmont, “Está fora de meu controle”.

Impressões


Márcio Silveira dos Santos
Fotos: Munir Klamt e Laura Cattani



Nosso método de trabalho para o Administrador (e de modo geral) é o seguinte: tudo parte de uma idéia ou imagem, e esta condiciona a forma (fotografia, instalação, música, etc), que é então regurgitada através da mitologia do Zede Etes e de Feltes, e definido a partir do espaço - procuramos espaços a princípio pouco conhecidos, procurando a sensação de realidade paralela que estes podem despertar (Joaquim Felizardo e Arquivo Público, por exemplo), e das possibilidades que este sugere, embora normalmente regido pelas condições gerais disponíveis. Outro tabulador eficiente no nosso processo é quanto dinheiro a gente pode gastar – embora muitas vezes a gente resolva simplesmente trabalhar em dobro pra compensar as limitações com equipe técnica ou recursos. Depois tudo vai sendo modificado, todo o tempo, até a última hora. Novas idéias vão sendo incorporadas à medida que surgem. Normalmente, quando passamos para a prática, tudo muda. E, quando está pronto, então é o momento de ser modificado. Ou seja, sempre acabamos colocando muito mais elementos, informações, gente, situações e equipamentos do que estava previsto (O Administrador era, originalmente uma performance de 20 minutos com uma projeção de vídeo e quatro atores em palco italiano ou equivalente, logo todo o resto não estava no projeto) e trabalhando exaustivamente para que isto dê certo, o que sofistica muito a possibilidade de erro desta equação.
Não há ensaios, apenas instruções. À moda do Clint Eastwood, tudo deve dar certo no primeiro take, isto é, a tensão é um elemento essencial para a execução, somada à maneira que o público vai reagir, outra imprevisibilidade. Logo, de modo geral, a primeira apresentação funciona como uma experiência onde são definidas todas as alterações a serem feitas na segunda (que, em geral, melhora substancialmente). Mas OK, e como foi o Administrador?

Mas OK, e como foi o Administrador?



Laura Cattani na performance O Administrador
Foto: Munir Klamt


O Administrador refletiu muito nossa metodologia de trabalho, pois mesmo com sessão dupla, quase sem intervalo entre uma e outra - fora o necessário para preparar novamente cenários, acessórios e figurinos - foram feitas modificações substanciais, fazendo com que a segunda sessão funcionasse de forma muito diferente da primeira, inclusive no que diz respeito à ambiência e clima geral, que na primeira foi mais divertido e, na segunda, mais sombrio.
É claro que, para nós, a sensação foi (como sempre) de que tudo foi um caos, quase nada saindo como previsto. É verdade que havia excesso de gente (acabaram entrando mais pessoas do que o limite estipulado), o que atrapalhava a mobilidade deste povaréu no espaço restrito dos corredores do Arquivo, e acabava comprometendo o ritmo geral, bem como das cenas. Já na segunda sessão, passada a adrenalina, foi possível perceber que tudo saiu tudo próximo do que estava previsto, tirante o FM (havia interferência demais no local). Mas, certamente, tudo será modificado. Em uma próxima temporada iremos levar mais adiante a possibilidade de percursos distintos para alguns dos participantes, de forma que fiquem sujeitos a perspectivas radicalmente diferentes do Administrador. E será provavelmente incluída uma cláusula de expulsabilidade, isto é, quem entra pode ser retirado ou imobilizado em qualquer momento da apresentação. O objetivo é que tudo passe a sensação de que todas as possibilidades estão em aberto, como a expectativa de uma criança entrando em uma casa mal assombrada. Todas estas alterações são parte do método de definição de um formato que ainda não sabemos ao certo qual é – porém sabemos que o próprio processo de busca do mesmo é extremamente divertido.

O Administrador - fotos ao vivo




Fotos de Jener

Convergência. Io kéko?*

Samir Jaime fazendo laboratório para O Administrador se utilizando, para tal,
de um derivado líquido baseado na fermentação de trigo. Foto Laura Cattani.

Porque a Ío sempre trabalhou com um conceito de convergência, antes que a terminologia estivesse definida. Desde O Diabo Está Nu Atrás da Porta ou do projeto de graduação do Munir, Dieta para Lua (1993). O projeto O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes é um excelente exemplo disto: a história que envolve o complexo Karma de Feltes e sua relação com o universo dos sonhos já foi abordada através de:
• Um musical multimídia chamadado Zede Etes (2005);
• Um site sobre o que é o Zede Etes;
• Uma exposição plástica chamada Zede Etes - O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes;
• Uma performance se apropriando de espaços não tradicionais(no Museu Joaquim Felizardo e no Arquivo Público), chamada O Administrador (junto com uma vindoura exposição fotográfica sobre os personagens da performance no Arquivo Público);
• Um projeto de intervenção urbana xipófago a um mini-CD com sua respectiva trilha sonora, chamado O Administrador Apagado;
• Uma coletânea de vídeos chamada Máquina de Presságios;
• Outra exposição plástica – Autotélico – que é uma subdivisão da exposição Zede Etes - O Estranho... ;
• O mestrado e um mini A.R.G. do Munir cuja o tema versa sobre as excêntricas atividades de Ernesto Souza (vide Zede Etes segunda versão).
• Um site com informações sobre a vida de Feltes e sobre o projeto (maio 2009);
• A trilha sonora do Zede Etes (que é diferente do espetáculo, para 2010);
• Uma caixa de microcontos e fotos sobre Autotélico (Edição de 100 assinada pela Calíope);
... Além da terceira parte desta trilogia, constituída por um A.R.G.*
(Sendo a primeira parte o Zede Etes (2005) e a segunda O Estranho Equívoco... (2008-2009)).
E como diria o Pernalonga:
Por enquanto é só pessoal.


*Para as gerações estatisticamente mais distantes da morte (a não ser que o fim do calendário Maia seja pra valer) E u quéku (seja lá como se escreve) quer dizer mais ou menos:
“E eu com isto?”
* O post “O que diabos é um A.R.G.” vem em breve.

O que diabos é uma performance de convergência?

Terno de Tronco fragmento da Performance "O Administrador". No Museu Joaquim Felizardo
Fo
to: Laura Cattani


Na verdade, o termo convergência se aplica sobretudo ao projeto O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes como um todo, mas vá lá, deu vontade colocar no material de divulgação. Mas o que diabos é uma performance de convergência? Convergência é a possibilidade de contar uma narrativa em vários tipos de veículos. Uma mesma história que se espraia no cinema, Tv, em fóruns de discussão e sites, celular, livros, videogame, figurinha de chiclé e por aí vai. Seja o que for, todas estas mídias são instrumentos para construir a história. Por exemplo, o seriado Lost usufruiu de várias plataformas para contar a história das desventuras dos bronzeados sofredores daquela ilha: começou por um seriado, havia um livro escrito por um suposto passageiro do vôo Oceanic 815, inclusive existe um site para esta companhia aérea fictícia, há um game sobre o seriado, episódios para celular, uma lostpedia onde informações sobre o seriado são organizadas, já existem capítulos feitos por fãs, e por toda a Internet há personagens e situações que excedem o seriado e aumentam a gama de informações sobre o mesmo.
Em resumo, convergência é considerar uma narrativa ficcional quase como um evento real, que como tal merece abordagens multifacetadas, isto é, destrinchar esta ficção em diversos suportes. Da mesma maneira que um evento real, como por exemplo a Segunda Guerra Mundial, se torna tema para uma infinidade de filmes, HQs, seriados, livros, documentários, lembranças, poemas, músicas e um monte de cadáveres, sendo que cada uma destas “mídias” de alguma forma representa um dos lados deste evento tão multifacetado, histórias ficcionais podem tomar o mesmo rumo, até com maior liberdade de mídias por não ter obrigações para com os fatos.
Pensando bem, convergência não é nada muito novo, mas é maneiro e não linear, o que permite a reconstrução da narrativa contada pelo espectador, que na verdade pode interferir e remodelar a narrativa com partes construídas por ele mesmo - desde comentários em blogues até versões
suecadas.

O ADMINISTRADOR - Uma performance de Convergência

Márcio Silveira dos Santos
Foto: Munir Klamt e Laura Cattani


Onde acontecem nossos sonhos? De que matéria eles são feitos? Em uma rara ocasião, pessoas despertas são convidadas a conhecer a estrutura onde os sonhos são erguidos, seus bastidores, seus cenários e personagens, guiadas pelo Administrador do Zede Etes. Em duas noites, são explicadas claramente as falsas regras de um jogo, através de instruções precisas e algumas mentiras. Personagens estranhos, vídeo-projeções, ambientes e transmissões de FM edificam um universo que cerca aqueles que sonham, onde pessoas são lugares, objetos ou animais, realidades se decompõem, histórias sem sentido revelam segredos e portas levam a lugares esquecidos ou apagados. Mas um homem faz com que tudo isso seja perdido ao acordar. Ele é o Administrador.

Uma performance de Convergência do Grupo Ío

Com Márcio Silveira dos Santos, Munir Klamt, Samir Jaime, Laura e Iandra Cattani, Italo Cellamare, Paula e Luiza Santos

Dias 04 e 05 de abril (sábado e domingo) às 19h30

Local: Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul. Rua Riachuelo, 1031 – Centro

Entrada Franca

Atenção:
Distribuição de senhas a partir das 19h00.
É importante portar um aparelho que capte ondas de FM (rádio, mp3 player, ipod, walkman, celular, etc.).
Não é recomendado usar saias ou saltos.
Em caso de chuva forte o evento será cancelado.
É proibido alimentar os pesadelos.

zede.etes@gmail.com

Financiamento: FUMPROARTE
Apoio: APERS

Quem é o Administrador?

Foto: Munir Klamt e Laura Cattani

Administrador geral, responsável pela organização, manutenção e realização dos sonhos. É o único que sabe como os sonhos são feitos. É ubíquo – consegue dividir-se simultaneamente em vários personagens ou coisas. É também quem define o que será esquecido ou como será lembrado no dia seguinte. É o único que pode ser substituído apenas por si mesmo - pois, caso outra pessoa assuma sua função, esta gradualmente transforma-se, mesmo sem ter consciência disto, no Administrador anterior.

Autocrítica indispensável para quem venha a se tornar um Administrador.


Depois que o Kristof Kieslowski desencarnou (trocadilho infame correlacionado com a tira acima). Laerte* é o maior artista vivo (ponto final). No entanto, pensando bem...
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Promoção. Clique em Laerte e ganhe atualização diária das tiras.

Cor Expressionista.

Foto: Munir Klamt e Laura Cattani

Esta imagem é uma versão que acabou não sendo utilizada no material gráfico da performance O Administrador. A cor escolhida faz referência ao curioso e esquecido fato de que os filmes Expressionistas Alemães da década de 20 não eram exatamente em preto e branco, mas de modo geral monocromos coloridos a partir de um processo de tingimento. Sépia, verde, vermelho e azul eram as cores mais frequentes, às vezes em todo o filme, outras vezes em partes marcantes (em algumas situações, eram pintados a mão, em poucas cópias). As cores também eram usadas em partes específicas, com objetivo e valor narrativo: azul para cenas noturnas, vermelho para elementos naturais como fogo e estados como amor ou paixão, púrpura para lugares luxuosos, etc. Com o tempo estas cores desapareciam pela ação química e o filme voltava a seu preto e branco, com o qual nos acostumamos.

O Administrador se despede


O Administrador do Zede Etes pensando em quem voltará.

Foto: Munir Klamt e Laura Cattani

CASA/CORPO

Laura e Munir em frente à videoinstalação "Quarta Parede" (Foto: Dione Veiga VIeira)


Visitem: CASA/CORPO

CASA/CORPO

Arte do Convite: Munir Klamt


Exposição CASA/CORPO na Galeria do DMAE

Artistas: Dione Veiga Vieira Klinger Carvalho
Laura Cattani e Munir Klamt (Grupo Ío)
Marcelo Gobatto
Gabriela Picoli e Luciano Zanette

Visitação: 10 de Junho a 02 de julho de 2008

Local: Galeria de Arte do DMAE Rua 24 de Outubro, 200

Conversa com os artistas: 26 de junho (quinta-feira), às 19h.

CEP 90510-000 Porto Alegre / RS
(51) 3289 9722
http://www.dmae.rs.gov.br/
http://www.dmaegaleriadearte.blogspot.com/
galeriadearte@dmae.prefpoa.com.br

CASA/CORPO – Uma Engrenagem Simbólica As simbologias da casa engendram uma poética instigante em torno do corpo e têm sido uma constante na produção da arte contemporânea. Seja através de elementos imprescindíveis em um lar, seja pelo aspecto da arquitetura interna e externa, a casa sempre repercute a dimensão humana em seus contextos político-sociais e assim, conseqüentemente reflete o próprio corpo. Porém, não mais limitado em si mesmo. CASA/CORPO é o desdobramento de uma exposição anterior – Casa Fechada – realizada no início deste ano por um grupo de artistas que utilizaram a imagem da casa como metáfora do corpo. Dione Veiga Vieira, Klinger Carvalho, Laura Cattani e Munir Klamt (Grupo-Ío), Marcelo Gobatto, Gabriela Picoli e Luciano Zanette voltam a apresentar diferentes abordagens sobre o tema através do uso de diversas linguagens e meios de expressão visual. O resultado é um panorama de obras que apontam para além do próprio corpo, e se expandem nas relações propostas entre corpo individual & corpo coletivo; simbolicamente, entre casa & corpo.
Mais informações: http://casacorpo.blogspot.com/
(textos por Dione Veiga Vieira)

O ADMINISTRADOR

Foto: Munir Klamt e Laura Cattani


O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes – Segunda parte
O ADMINISTRADOR

O Administrador é uma performance multimídia que envolve vídeo-projeções, textos pré-gravados, ambientes, personagens estranhos e transmissões de FM, criando um clima onírico com o qual o público poderá interagir e ter percursos narrativos diferentes e individuais, como em um jogo. Nesta incursão ao universo dos sonhos, guiada pelo Administrador do Zede Etes, todas as noites uma equipe de atores, lugares, delicados pesadelos e desejos secretos é dirigida por ele. Nesta rara ocasião, através de instruções precisas e algumas mentiras, pessoas despertas poderão conhecer parte deste processo

Com: Márcio Silveira dos Santos, Munir Klamt, Laura e Iandra Cattani, Samir Jaime, Paulo Roberto dos Santos, Ítalo Cellamare, Paula e Luiza Santos
Local: Museu Joaquim Felizardo - Rua João Alfredo, 582, Cidade Baixa.
Datas: 7, 14, 21 e 28 de junho (sábados) às 17h15
ENTRADA FRANCA
É importante portar um aparelho que capte transmissões FM (rádio, mp3 player, ipod, walkman, celular, etc.)
É proibido alimentar os pesadelos.
Dúvidas, informações e reservas: zede.etes@gmail.com
Saiba mais sobre o Zede Etes em:http://www.grupo-io.com/


------------ Em caso de mau tempo o evento será cancelado ------------
Veja como chegar lá

ZEDE ETES


O Administrador
Foto: Munir Klamt e Laura Cattani

De que matéria são feitos nossos sonhos? Onde eles acontecem? O Zede Etes é um lugar onde pessoas são ruas ou montanhas, carros ou animais e surgem e desaparecem do chão. Onde histórias sem sentido revelam segredos, onde o futuro é contado de maneira mentirosa e onde portas levam a lugares perdidos ou esquecidos. Neste lugar são explicadas claramente as falsas regras de um jogo. Mas um homem faz com que tudo isso seja esquecido ao acordar. É possível e extremamente prazeroso ter sonhos lúcidos, mas há um homem que impede que isto aconteça. Alguém que decide o que vamos sonhar, que determina nossos atos, que constrói um mundo ao nosso redor. Alguém que fala conosco dentro de nossos sonhos, que brinca com nossos medos, que esconde segredos à nossa frente. Este homem que não existe se chama o Administrador.

Barroco I(r)ônico

Roupa para se transformar em Monstro
Foto: Laura Cattani

É normalmente difícil, para quem faz uma obra artística contemporânea, definir, quando lhe é perguntado por terceiros, à qual filiação estética a mesma pertence. Se, por um lado, temos ismos e definições escolásticas que competem, na quantidade, com as classificações dos coleópteros, nos municiando de possibilidades classificatórias, por outro lado os mesmos podem não representar a realidade que se busca expressar. Além disso, em um período de Tags e leitura rápida, a informação deve ser sucinta, clara e didática. Logo, fazer a Taxonomia estética de si mesmo é uma tarefa inglória e com forte inclinação para o equívoco – e, conseqüentemente, com alguma possibilidade intrínseca de diversão. A primeira tentativa classificatória que faremos dos trabalhos do Grupo Ío nos fará retornar 2.500 anos e recorrer ao sentido literal (em grego) da palavra ironia, que é algo como “narração incompleta”, “exposição atenuada ou incompleta de uma ocorrência”. Devemos então saltar de volta ao presente e acrescentar o significado contemporâneo da palavra ironia, já que de modo geral os trabalhos da Ío têm um insuspeito e incompreendido humor. Em seguida, retornar 500 anos (ou avançar 2.000, dependendo da perspectiva) e apropriar-nos do Barroco (desconsiderando o oba-oba da Contra-Reforma) e sua idéia de luxúria formal e o gosto pelas curvas, luzes e sombras. Somamos a vontade de agregar citações veladas a isto como uma forma compulsiva de prazer. Ao final, teríamos algo como “Barroco Citacionista Irônico” - o que parece um oxímoro plenamente aceitável.

Uma Paisagem de Sonhos, por Dione Veiga Vieira

Ninfas e Sátiro, de William-Adolphe Bouguereau

Dione* é a deusa das ninfas. Filha de Urano e de Tálassa, ela foi amada por Zeus (tal qual nossa cordata Io), de quem teve Afrodite, a deusa do amor, da sedução e da beleza (filha para orgulhar qualquer mãe). As ninfas são membros de uma grande categoria de deusas-espíritos naturais femininos, às vezes ligadas a um local ou objeto particular. São frequentemente alvo da luxúria dos sátiros. Espíritos da natureza, as ninfas são divindades que, em todo o mundo Helênico, inspiravam grande devoção e homenagens, e mesmo temor. Logo, estamos muito honrados com o texto “Zede Etes - Uma Paisagem De Sonhos”, de autoria de Dione Veiga Vieira, sobre a exposição Zede Etes - O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes.

* Ío é uma lua de Júpiter, e Dione uma lua de Saturno.

Io (primeira versão)

Zeus, em forma de nuvem, abraça Io, de Antonio da Correggio.

Io (pronuncia-se ÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍo) foi uma das paixões de Zeus. Ela era filha do deus-rio Ínaco, que por sua vez era filho de Oceanus e Tétis. Sua beleza despertou a paixão de Zeus, que, para cortejá-la, cobriu o mundo com um manto de nuvens escuras, escondendo seus atos da visão de Hera. A estratégia falhou e a deusa, desconfiada, desceu do monte Olimpo para averiguar o que estava acontecendo. Numa vã tentativa de iludir sua esposa ciumenta, o deus transformou sua amante em uma belíssima novilha branca (tirando o eufemismo educado, uma vaca). Intrigada pelo interesse do marido no animal e maravilhada com a beleza do mesmo, Hera exigiu a novilha para si e a pôs sob a guarda do gigante Argos Panoptes. Argos, quando dormia, mantinha abertos cinquenta de seus cem olhos. Zeus encarregou Hermes de libertar sua amada. Para tanto, o mensageiro dos deuses, usando a flauta de Pã, pôs para dormir os olhos despertos de Argos, enquanto os outros cinquenta dormiam um sono natural, e cortou sua cabeça. Io fugiu, mas continuou sendo atormentada por Hera. O mar cujas praias percorreu recebeu o nome de Mar Iônio. Ao chegar ao monte Cáucaso, encontrou Prometeu acorrentado em uma rocha. O titã lhe disse que, ao alcançar o Egito, ela seria restaurada à sua forma humana por Zeus e teria um filho. A criança seria a primeira de uma linhagem que culminaria com Hércules, que acabaria por libertar o próprio Prometeu. Ao chegar às margens do Nilo Ío, cansada de tanto sofrimento, implorou a Zeus por um fim. O deus, comovido, foi falar com Hera e ambos restauraram Io à sua forma humana. Ela teve um filho, Épafo, e reinou sobre o Egito, sob o nome de Ísis e casada com Telégono. O mito de Io pode ser interpretado como uma alegoria lunar, na qual a fuga da novilha representaria o movimento da Lua e os olhos de Argos, o céu estrelado. (Fonte: wikipedia)