Viking Eggeling

Um dos fantásticos filmes da UFA (Universum Film Aktiengesellchaft) que fizeram parte da programação do Metropolitano. A trilha é contemporânea, mas é um dos raros casos que funciona.

Demônio Pessoal

Na primeira apresentação do SAÍA DE EMERGÊNCIA foi executada pela única vez uma música chamada Demônio Pessoal. O demônio a que a música se refere é uma pequena criatura que, dia a dia, nos fala baixíssimo, sussurrando em nosso ouvido. Algo como a spikeleeana “faça a coisa certa”. Ele não nos julga ou tem valoração moral de nossos atos, apenas gosta de nós como nós gostamos do mar à noite ou de animais selvagens – ou seja, de algo que é, simultaneamente, simples e incompreensível. No final de tudo, ele ainda espera alguns dias enquanto nosso corpo vira playground de vermes. Nossa única obrigação para com ele é fazer um esforço gigantesco para ouvi-lo. Antes que sejamos acusados de Satanistas e associados aos seguidores do Iron Maiden, vamos esclarecer que, toda vez que falamos em demônio, estamos falando daquele cavaleiro que ajudou Eva e Adão a tomar consciência de sua mortalidade, e, para o bem ou para o mal, ajudou-os na fuga do paraíso. É bom sempre lembrar que a imagem clássica do demônio está associada, à uma forte mídia negativa feita pelo cristianismo em relação às entidades pagãs como o Fauno romano ou o Pan grego, ou ainda o Cernunnos Celta, criaturas estas vinculada à ordem da natureza. O nosso Demônio Pessoal é, na verdade, nossa gíria para auto-consciência.
Munir como seu Demônio Pessoal
Foto: Laura Cattani


Aforismos: Kafka, Franz


1
O caminho verdadeiro segue por sobre uma corda, que não está esticada no alto, mas se estende quase rente ao chão. Parece mais determinado a fazer tropeçar, do que a ser transitável..

5
A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.
50
O homem não pode viver sem uma permanente confiança na existência de algo indestrutível dentro de si. Tanto a indestrutibilidade quanto a confiança funcionam como um abrigo permanente. Um modo de expressão desse estar abrigado é a crença em um Deus pessoal.

A. Hilzendeger Feltes (Parte 3)

Desenho de A. Hilzendeger Feltes que serve de
inspiração para a instalação Miasmas na exposição
Zede Etes- O Estranho Equívoco, etc, etc.

Os anos do Cine-Theatro Metropolitano fazem surgir um A. Hilzendeger Feltes diferente do homem que havia até então. A estabilidade financeira, associada à realização do seu sonho na América e sua felicidade matrimonial, bem como a alegria pela chegada de suas filhas, fazem aflorar o personagem que Feltes havia criado, inconscientemente, para administrar o Metropolitano. Nem a morte de um de seus irmãos, Karl Hilzendeger Feltes, na Primeira Guerra Mundial, abala seus novos projetos. Fascinado com o cinema expressionista, Feltes começa a escrever histórias, pequenos roteiros ou aforismas que misturavam fábulas germânicas, Franz Kafka, simbolismo e o próprio Expressionismo. Desenha criaturas fantásticas em um compêndio próximo a um bestiário. Mantém correspondência com o irmão, seus amigos e alguns artistas europeus como Viking Eggeling, cineasta da UFA, e o desenhista e cenarista Franz Grünwald (irmão do pintor dadaísta Johannes Theodor Baargeld). Todas estas mudanças criam um homem criativo, que produz intensamente e participa ativamente dos arranjos musicais dos filmes, em parceria com o Professor Costa Dourado, da organização da programação cinematográfica e nas apresentações musicais. Feltes vive intensamente o dia-a-dia do Metropolitano. Seus trabalhos, pelo seu caráter privado e modernista para a Porto Alegre de então, não tiveram repercussão na época. Foi só à partir da década de 60, através de um processo de revisão, que seus trabalhos ganharam a respectiva atenção, apesar de dentro de um circulo mais restrito e acadêmico e tornaram-se públicos.

Autochoque e o Estoicismo


Uma das intenções do projeto Autochoque (veja o post de primeiro de abril) é falar sobre acidentes automobilísticos de uma forma estética, analítica e fria, o cerne sendo a consciência de que tragédias automobilísticas são um grave problema de nosso tempo, mas que no futuro serão consideradas uma das excentricidades da humanidade nos séculos XX e XXI - da mesma maneira que vemos os sanguinolentos rituais astecas, as cruzadas dos meninos de 1212 ou a crença no Mar Tenebroso como algo absurdo, beirando o incompreensível. Abaixo, exemplo cabal de estoicismo em relação aos costumes anacrônicos de seu tempo:


Musa do Autochoque

Santa Apolônia e um zangão ousado.

Obra destruída por intervenção da Calíope no Zangão

No anteriormente citado salão 10x10, entre os trabalhos que não foram selecionados, estava o zoofílico “Retorno Fatal ao Figurativo”*, uma assemblage entre Santa Apolônia e um Zangão. A crença pseudo-cientifica afirma, categoricamente, que os zangões não voam. Aerodinamicamente falando. E os crentes na ausência de Deus (ateus), que santos não existem. Logo, dependendo do ponto de vista, tratava-se de um trabalho minimalista sobre o nada.

Aos que estão desesperados para saber mais sobre esta fascinante Santa Apolônia, afoguem-se em sua curiosidade abaixo.

Santa Apolônia foi (e é) uma Mártir Cristã no ano 246, criada na Alexandria durante o reinado do Imperador Philip I, o Árabe (244-249) e Trajanus Decius (249-251), período em que multidões furiosas, na Alexandria e Egito, saíam às ruas à caça de cristãos (um esporte muito em voga na época). Apolônia, uma Diácona, foi apanhada pelo populacho e, como ela se recusava a renunciar a Jesus e a sua fé, foi cruelmente torturada. Seus dentes foram arrancados com uma torquês, quebraram seus maxilares e levaram-na a uma pira, onde veio a morrer queimada. Abaixo, a descrição de um transeunte no tempo e espaço:

"Eles amarraram esta preciosa virgem, quebraram todos os seus dentes com socos nos maxilares, fizeram uma fogueira e ameaçaram queimá-la viva, mas ela continuava recusando a recitar as blasfêmias que eles queriam que ela recitasse (provavelmente mesmo que ela quisesse recitar qualquer coisa, não sairia). Então, de repente, ela mesma entrou na pira e foi logo envolvida de um fogo do "Espírito Santo", pois de lá de dentro ela nos olhava com o rosto de uma cristã sem nenhum medo.”.

Os anais de seu martírio contêm outras crueldades, mas, na liturgia católica, ela é representada segurando a pinça usada em seus dentes, tendo-se tornado a padroeira oficial dos dentistas e sendo invocada contra a dor de dente. Pra quem acha os X-men grande coisa, recomendo a leitura da vida dos santos e mártires da cristandade (aquilo que era mutante!).


* O título, para quem não perde tempo com as mumunhas das artes, refere-se a um hipotético zangão que, depois de uma longa fase abstrata, retorna à figuração, desenha uma santa, e morre (romanticamente, tipo século XIX) apaixonado pela mesma.