Jimmy Scott ( Série associação Fonética I )



Episódio Final de Twin Peaks


Nesta série de 3 pequenos posts unidos por associação fonética serão apresentados três cavaleiros que fazem parte da genealogia da Ío - afinal parentescos se dão, inevitavelmente, por sangue – mas também pelo o conjunto de idéias que nos seduzem pela vida (assunto que será tema de outro post), o que alguns chamam de “Minha Personalidade”.
A Ío, que até hoje nós não sabemos precisamente o que é, eventualmente encarna a forma de uma agremiação musical. Nesta encarnação, ela tem dois vocalistas, mas nós sempre vemos as músicas da Ío cantadas de diversas formas e timbres, como se cada música contasse sua história ou ponto de vista e precisasse de um protagonista individual - o que sempre buscamos emular. Em condições ideais de pressão e saúde financeira Jimmy Scott seria um deles (caso estejas curioso, Nelson Gonçalves, Mike Patton e David Bowie (depois dos cinquenta anos) seriam alguns dos outros).
Introduzimos aqui, então, o primeiro dessa série, o Sr. Jimmy Scott. Jimmy Scott, de família pobre e pai alcoólatra, tinha a síndrome de Kallmann, em decorrência da qual seu corpo produzia uma quantidade reduzida de testosterona, o que alterou o seu crescimento, seu olfato e influenciou a sua voz, deixando-o com um estranho timbre de soprano.
Conhecemos Jimmy Scott no episódio de encerramento do seriado Twin Peaks, onde ele aparece cantando no Salão Negro (vide o vídeo acima). A música, composta por David Lynch, está na trilha de Fire Walk With Me - baixe aqui caso queira.
Esta cena tem um impacto suplementar, em função de todo o conjunto de eventos que cercam a circunstância de seu reaparecimento ser fantástico – após cantar no funeral de um amigo, pela primeira vez em décadas, e ter sido reconhecido por Lou Reed, essa performance é a que marca a volta de Scott, que tivera um longo período fora dos palcos, frustrado com o fracasso, durante o qual trabalhou como funcionário em um hospital e ascensorista de elevador. Este é um caso, como o de David Byrne ressuscitando a carreira de Tom Zé, que trabalhava em um posto de gasolina, e Jim Jarmuch, que trouxe de volta aos palcos Screamin’ Jay Hawkings, que vivia então em um estacionamento de trailers, em que devemos agradecimentos à Lynch por ter trazido-o de volta a uma carreira que se revelou ainda mais impressionante (ele continua cantando, atualmente com 84 anos).
De resto veja o vídeo e no final diga:
-Putaquiopariu.

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Jimmy Scott: "Sometimes I Feel Like A Motherless Child”

Legenda Áurea, Nirvana e sua construção de Mundo.

Legenda Áurea. A vida dos Santos
Este maravilhoso livro, chamado Legenda Áurea (que é um dos nossos sonhos de consumo), conta a vida dos santos, assunto que interessa de sobremaneira a Ío (vide este post). Se, por ventura, você acha isto anacrônico, ultrapassado, quadrado, nada-a-vê, você provavelmente está certo. Contudo*, um dos primeiros historiadores da arte, Giorgio Vasari, publica em 1550 “Le Vite de' più Eccellenti Pittori, Scultori e Architettori”, onde ele registra a vida de alguns artistas do Renascimento. O modelo estrutural que ele toma de empréstimo para organizar este compendio é? Ah? É? A vida dos santos. Sim senhor. Este formato acaba se consagrando, e é válido até hoje. Por exemplo, quando você pensa no Van Gogh, Modigliani, James Dean, Kurt Cobain, você está ecoando mentalmente a construção destas mitologias através da ordenação proposta por Vasari. É sua cabecinha cristã, que você nem sabe que tinha, ordenando o mundo. Vídeo forçando despudoradamente a tese deste post:
* (uma das grandes alegrias da vida é a conjunção adversativa)

(Da série) O que diabos é Corpus Christi?


Ok, feriadão. Pra quem não sabe, o feriado é de Corpus Christi, que é a ascensão corpórea de Cristo aos céus. Depois da páscoa, evento que marca sua crucifixão e ressureição(obrigado Clarissa) - tecnologia que cristo já havia treinado com Lázaro - embora desconheça se a dita ressureição foi engenho de suas artes ou atitude de seu pai. Mas provavelmente foi uma auto-ação, ainda mais considerando a ausência da figura paterna, em uma fase mais contida, no novo testamento. Afinal, deus agita o pedaço no velho testamento – dilúvios, genocídios, holocausto nuclear (Sodoma e Gomorra), primogenicídio (se é que existe tal palavra) no Egito, contabilizando mais de 2 milhões de mortos (na verdade 2.391.421). Satã matou 10 na mesma Bíblia, sério (obviamente a sua preocupação com a imagem pública era bem maior). Caso queira ver o placar completo e o local destes embates clique aqui.
Mas, voltando ao assunto, que aqui é a ascensão de Cristo, depois de sua ressureição-reencarnação (terminologia complicada neste caso, uma vez que Jesus volta, teoricamente, no mesmo corpo, porém nem mesmo seus apóstolos o reconhecem imediatamente) passa 40 dias na terra (coincidentemente o mesmo período que ele passou no deserto) e sobe aos céus – detalhe: COM seu corpo, e esse que é o grande lance. A partir deste evento, seu corpo, na Terra, passa a existir através da transubstanciação da eucaristia. Isto é, a hóstia, aquele objeto minimalista que representa simbolicamente o corpo e o sangue de cristo. O que argumentativamente nos torna, cristãos no geral, uma espécie de vampiro ao ingerir com tanta devoção este corpo e este sangue. Caso você tenha tido a paciência de ler até aqui e pense:
Io kéko?
Leia o próximo post.

Mãe


Série Trágica, na qual Flávio de Carvalho desenha
os últimos momentos do estertor de sua mãe.

Aqui o relato no Estado de S. Paulo sob o título de: NA PROCISSÃO, UMA EXPERIÊNCIA SOBRE A PSICOLOGIA DAS MULTIDÕES DA QUAL RESULTOU SÉRIO DISTÚRBIO. Domingo, às 15 horas, quando desfilava pelas ruas do centro da cidade a procissão de Corpus Christi, um rapaz muito bem posto, que se achava na esquina da rua Direita e Praça do Patriarca, não se descobriu, conservando ostensivamente seu chapéu na cabeça. Os crentes, que acompanhavam o cortejo, revoltaram-se com esta atitude e exigiram em altos brados que ele se descobrisse. Ele, no entanto, sorrindo para a turba, não tirou o chapéu, embora o clamor da multidão já se tivesse transformado em franca ameaça. Foi então que inúmeros populares tentaram linchá-lo, investindo contra ele. O rapaz pôs-se em fuga, ocultando-se na Leiteria Campo Bello, situada à rua São Bento, até onde foi perseguido pelos mais exaltados. O sub-delegado de plantão na Polícia Central compareceu ao local, onde deu garantias ao moço, protegendo-o contra a ira do povo. Na Polícia Central para onde foi conduzido, declarou a vítima da exaltação popular o engenheiro Flávio de Carvalho, de 31 anos de idade, residente à Praça Oswaldo Cruz, 1. Nas suas declarações, disse que há tempos se vem dedicando a estudos sobre a psicologia das multidões e tem mesmo alguns trabalhos inéditos sobre a matéria. Para melhor orientação dos seus estudos, resolvera fazer uma experiência sobre a "capacidade agressiva de uma massa religiosa à resistência das forças das leis civis, ou determinar se a força da crença é maior do que a força da lei e do respeito à vida humana"

Lyncha! Lyncha! Lyncha!


Tapetes feitos para a procissão de Corpus Christi. Nas cidades de tradição açoriana eles são de pétalas de flores.


No dia de Corpus Christi de 1931, o artista Flávio de Carvalho realizou a experiência número 2, que consistia em andar no sentido contrário à procissão de Corpus Christi usando um boné, um boné verde de veludo.
Você, na sua ausência de perspectiva histórica, talvez esteja dizendo: - Grandes merda.
No entanto, na provinciana São Paulo de 1931, manter um boné ostensivamente na cabeça, durante uma procissão ou na igreja, era acintosamente agressivo.
Resumo dos eventos: Flávio de Carvalho teve que fugir da multidão e foi salvo pela polícia. Para constar, a turba enlouquecida gritava ensandecidamente:
Lyncha, Lyncha, Lyncha... (que, na época, era escrito assim mesmo)



Capa da segunda edição do livreto em que Flávio de Carvalho contava o evento da Experiencia número 2.