Uma Paisagem de Sonhos, por Dione Veiga Vieira

Ninfas e Sátiro, de William-Adolphe Bouguereau

Dione* é a deusa das ninfas. Filha de Urano e de Tálassa, ela foi amada por Zeus (tal qual nossa cordata Io), de quem teve Afrodite, a deusa do amor, da sedução e da beleza (filha para orgulhar qualquer mãe). As ninfas são membros de uma grande categoria de deusas-espíritos naturais femininos, às vezes ligadas a um local ou objeto particular. São frequentemente alvo da luxúria dos sátiros. Espíritos da natureza, as ninfas são divindades que, em todo o mundo Helênico, inspiravam grande devoção e homenagens, e mesmo temor. Logo, estamos muito honrados com o texto “Zede Etes - Uma Paisagem De Sonhos”, de autoria de Dione Veiga Vieira, sobre a exposição Zede Etes - O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes.

* Ío é uma lua de Júpiter, e Dione uma lua de Saturno.

Io (primeira versão)

Zeus, em forma de nuvem, abraça Io, de Antonio da Correggio.

Io (pronuncia-se ÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍo) foi uma das paixões de Zeus. Ela era filha do deus-rio Ínaco, que por sua vez era filho de Oceanus e Tétis. Sua beleza despertou a paixão de Zeus, que, para cortejá-la, cobriu o mundo com um manto de nuvens escuras, escondendo seus atos da visão de Hera. A estratégia falhou e a deusa, desconfiada, desceu do monte Olimpo para averiguar o que estava acontecendo. Numa vã tentativa de iludir sua esposa ciumenta, o deus transformou sua amante em uma belíssima novilha branca (tirando o eufemismo educado, uma vaca). Intrigada pelo interesse do marido no animal e maravilhada com a beleza do mesmo, Hera exigiu a novilha para si e a pôs sob a guarda do gigante Argos Panoptes. Argos, quando dormia, mantinha abertos cinquenta de seus cem olhos. Zeus encarregou Hermes de libertar sua amada. Para tanto, o mensageiro dos deuses, usando a flauta de Pã, pôs para dormir os olhos despertos de Argos, enquanto os outros cinquenta dormiam um sono natural, e cortou sua cabeça. Io fugiu, mas continuou sendo atormentada por Hera. O mar cujas praias percorreu recebeu o nome de Mar Iônio. Ao chegar ao monte Cáucaso, encontrou Prometeu acorrentado em uma rocha. O titã lhe disse que, ao alcançar o Egito, ela seria restaurada à sua forma humana por Zeus e teria um filho. A criança seria a primeira de uma linhagem que culminaria com Hércules, que acabaria por libertar o próprio Prometeu. Ao chegar às margens do Nilo Ío, cansada de tanto sofrimento, implorou a Zeus por um fim. O deus, comovido, foi falar com Hera e ambos restauraram Io à sua forma humana. Ela teve um filho, Épafo, e reinou sobre o Egito, sob o nome de Ísis e casada com Telégono. O mito de Io pode ser interpretado como uma alegoria lunar, na qual a fuga da novilha representaria o movimento da Lua e os olhos de Argos, o céu estrelado. (Fonte: wikipedia)

Encerramento: Sexta-Feira, dia 9

"Um tratado onírico; o porão do IO", por Jones

Foto de Jones (criação livre com material pessoal e material de divulgação do Zete Etes)

É sempre muito gratificante ter retorno em relação às obras, pois isso é um dos materiais com os quais trabalhamos: visões, sentimentos, interpretações. E é muito bom ter a visão de olhos não conectados ao nosso cérebro. Neste texto, Jones faz uma análise ao mesmo tempo pessoal, profunda e instigante, que traduz muito dos sentimentos que tentamos explorar.

Leia em: http://jonespoa.blogspot.com/

Josefina e Carolina Egon Feltes


Agradecemos à Senhora Galina Ivanova Dias pela foto de Josefina e Carolina Egon Feltes.


As filhas gêmeas de A. Hilzendeger Feltes morreram em 1927, durante um surto tardio de uma variante da gripe Espanhola. A foto acima é, provavelmente, o único registro das meninas que restou. No espetáculo Zede Etes (2005) as irmãs Iandra e Laura Cattani (que, apesar de não serem gêmeas confundem, normalmente, os transeuntes e amigos) faziam pequenos truques de espacialidade, como se fosse a mesma pessoa desaparecendo e surgindo em pontos diferentes do palco (idéia semelhante foi usada pelo excelente filme “O Grande Truque” (The Prestige), de 2006, de Christopher Nolan). As duas executavam o papel de filhas, hipoteticamente adultas, de Feltes. O figurino destas personagens era inspirado em roupas desenhadas por Gustav Klint (e não se fala mais nesse assunto, prometemos).

Secessão Vienense



O alegre post anterior (Munir Klamt diz: -Klimt!) é uma pequena introdução sobre a obra de Gustav Klimt, basicamente para falar do movimento de renovação nas artes vienenses do qual ele participava, chamado Secessão Vienense (e olha que Viena era um marasmo naquela época: Freud, Arnold Schönberg, Robert Musil, Adolf Loos...). Tal qual o Arts & Crafts inglês, este grupo buscava romper com as tradições locais (como sempre) e criar uma definição mais ampla para a arte, com a inclusão de artes aplicadas (leia-se: arquitetura, artes gráficas em geral, indumentária e, claro, pintura e congêneres). A Secessão Vienense influenciou o Art Nouveaue o Jungendstil, o que não é pouca bobagem. A pintura acima chama-se Helene Klimt e o vestido que a menina usa foi criado, óbvio, por Klimt.

Paula e Luiza à la Klimt

Paula e Luiza Santos durante as gravações de "3 versões".
Figurinos roubados da Maison Gustav Klimt
Foto de Laura Cattani

Munir Klamt Diz: - Klimt!

Medicina (Destruído em 1945),
Obviamente, um quadro de Klimt

Ok, Gustav Klimt é sexy. Em suas pinturas, as mulheres vivem em êxtase sensual. No entanto, os homens figuram nos seus quadros como dois de paus (o duplo sentido é opcional): inexpressivos, principalmente se comparados às mulheres. Na cosmogamia Klimtiniana, eles tiveram função ao livrar a espécie humana das feras, construir uma sociedade através de virulentos conflitos, inventar a arma de repetição e o veículo automotor, e pára por aí. E o preço disto é que o deleite não lhes é oferecido, este é feminino. Enfim, os homens são algo como o cóccix; isto é, obsoletos, mas mesmo assim todo mundo nasce com um. Esta introdução abundante de misandria é para lembrar um fato que, de modo geral, não é tão perceptível: que o parceiro das mulheres de Klimt não é o sexo viril, os caras da progesterona, mas sim a morte e a deterioração (exemplos ilustrativos 1, 2, 3, 4).Tânatos(morte) e Eros, o Yang e Yin da cultura ocidental.

Boa segunda-feira





Fotos Laura Cattani

Últimos dias!

Sessão Extra (Versão Social)





Fotos Anelise Camargo Garcia


Ponto Cego

Por favor, tape o olho direito e aproxime-se da tela,
olhando fixamente para o ponto branco à direita.

Ainda sobre o mesmo assunto do post anterior: veja acima esta mistura de construtivismo e defeito de fabricação (o que pode ser dito de toda Op-art, sem demérito algum). Se possível entre no link para entender melhor a função social da figura. O conceito de ponto cego, a idéia de que algo está à sua frente, próximo e claro e, ainda assim invisível, (se isto for pensado metaforicamente, melhor ainda), é fascinante.

Cérbero* e a Enxaqueca

Nosso cérebro, assim como nossa coluna vertebral, é um dispositivo ainda em evolução - com algumas pequenas falhas, inerentes a todo desenvolvimento de sistema. Amplie a imagem abaixo para ver um pequeno bug deste seu vaidoso órgão. O relevante, em se tratando de artes visuais, é que os seus olhos (instrumento de xeretagem do cérebro) não são confiáveis. Não vamos ser sentimentais por causa disto, e considerar que emoção é o que conta, etc e tal. O que nos resta nesta equação é... (dançar um tango argentino? Pneumotórax? 4:33 de Cage?)


Amplie a imagem e olhe atentamente, por favor.
A. Hilzendeger Feltes
Fonte: My Optical Illusion

*Está escrito corretamente, não estamos nos referindo ao cérebro e sim a cérbero
E não, a imagem não se move, é apenas uma falha de comunicação entre seus olhos e seu cérebro, estes danadinhos.

Viking Eggeling

Um dos fantásticos filmes da UFA (Universum Film Aktiengesellchaft) que fizeram parte da programação do Metropolitano. A trilha é contemporânea, mas é um dos raros casos que funciona.

Demônio Pessoal

Na primeira apresentação do SAÍA DE EMERGÊNCIA foi executada pela única vez uma música chamada Demônio Pessoal. O demônio a que a música se refere é uma pequena criatura que, dia a dia, nos fala baixíssimo, sussurrando em nosso ouvido. Algo como a spikeleeana “faça a coisa certa”. Ele não nos julga ou tem valoração moral de nossos atos, apenas gosta de nós como nós gostamos do mar à noite ou de animais selvagens – ou seja, de algo que é, simultaneamente, simples e incompreensível. No final de tudo, ele ainda espera alguns dias enquanto nosso corpo vira playground de vermes. Nossa única obrigação para com ele é fazer um esforço gigantesco para ouvi-lo. Antes que sejamos acusados de Satanistas e associados aos seguidores do Iron Maiden, vamos esclarecer que, toda vez que falamos em demônio, estamos falando daquele cavaleiro que ajudou Eva e Adão a tomar consciência de sua mortalidade, e, para o bem ou para o mal, ajudou-os na fuga do paraíso. É bom sempre lembrar que a imagem clássica do demônio está associada, à uma forte mídia negativa feita pelo cristianismo em relação às entidades pagãs como o Fauno romano ou o Pan grego, ou ainda o Cernunnos Celta, criaturas estas vinculada à ordem da natureza. O nosso Demônio Pessoal é, na verdade, nossa gíria para auto-consciência.
Munir como seu Demônio Pessoal
Foto: Laura Cattani


Aforismos: Kafka, Franz


1
O caminho verdadeiro segue por sobre uma corda, que não está esticada no alto, mas se estende quase rente ao chão. Parece mais determinado a fazer tropeçar, do que a ser transitável..

5
A partir de um certo ponto não há mais retorno. Esse é o ponto que deve ser alcançado.
50
O homem não pode viver sem uma permanente confiança na existência de algo indestrutível dentro de si. Tanto a indestrutibilidade quanto a confiança funcionam como um abrigo permanente. Um modo de expressão desse estar abrigado é a crença em um Deus pessoal.

A. Hilzendeger Feltes (Parte 3)

Desenho de A. Hilzendeger Feltes que serve de
inspiração para a instalação Miasmas na exposição
Zede Etes- O Estranho Equívoco, etc, etc.

Os anos do Cine-Theatro Metropolitano fazem surgir um A. Hilzendeger Feltes diferente do homem que havia até então. A estabilidade financeira, associada à realização do seu sonho na América e sua felicidade matrimonial, bem como a alegria pela chegada de suas filhas, fazem aflorar o personagem que Feltes havia criado, inconscientemente, para administrar o Metropolitano. Nem a morte de um de seus irmãos, Karl Hilzendeger Feltes, na Primeira Guerra Mundial, abala seus novos projetos. Fascinado com o cinema expressionista, Feltes começa a escrever histórias, pequenos roteiros ou aforismas que misturavam fábulas germânicas, Franz Kafka, simbolismo e o próprio Expressionismo. Desenha criaturas fantásticas em um compêndio próximo a um bestiário. Mantém correspondência com o irmão, seus amigos e alguns artistas europeus como Viking Eggeling, cineasta da UFA, e o desenhista e cenarista Franz Grünwald (irmão do pintor dadaísta Johannes Theodor Baargeld). Todas estas mudanças criam um homem criativo, que produz intensamente e participa ativamente dos arranjos musicais dos filmes, em parceria com o Professor Costa Dourado, da organização da programação cinematográfica e nas apresentações musicais. Feltes vive intensamente o dia-a-dia do Metropolitano. Seus trabalhos, pelo seu caráter privado e modernista para a Porto Alegre de então, não tiveram repercussão na época. Foi só à partir da década de 60, através de um processo de revisão, que seus trabalhos ganharam a respectiva atenção, apesar de dentro de um circulo mais restrito e acadêmico e tornaram-se públicos.

Autochoque e o Estoicismo


Uma das intenções do projeto Autochoque (veja o post de primeiro de abril) é falar sobre acidentes automobilísticos de uma forma estética, analítica e fria, o cerne sendo a consciência de que tragédias automobilísticas são um grave problema de nosso tempo, mas que no futuro serão consideradas uma das excentricidades da humanidade nos séculos XX e XXI - da mesma maneira que vemos os sanguinolentos rituais astecas, as cruzadas dos meninos de 1212 ou a crença no Mar Tenebroso como algo absurdo, beirando o incompreensível. Abaixo, exemplo cabal de estoicismo em relação aos costumes anacrônicos de seu tempo:


Musa do Autochoque

Santa Apolônia e um zangão ousado.

Obra destruída por intervenção da Calíope no Zangão

No anteriormente citado salão 10x10, entre os trabalhos que não foram selecionados, estava o zoofílico “Retorno Fatal ao Figurativo”*, uma assemblage entre Santa Apolônia e um Zangão. A crença pseudo-cientifica afirma, categoricamente, que os zangões não voam. Aerodinamicamente falando. E os crentes na ausência de Deus (ateus), que santos não existem. Logo, dependendo do ponto de vista, tratava-se de um trabalho minimalista sobre o nada.

Aos que estão desesperados para saber mais sobre esta fascinante Santa Apolônia, afoguem-se em sua curiosidade abaixo.

Santa Apolônia foi (e é) uma Mártir Cristã no ano 246, criada na Alexandria durante o reinado do Imperador Philip I, o Árabe (244-249) e Trajanus Decius (249-251), período em que multidões furiosas, na Alexandria e Egito, saíam às ruas à caça de cristãos (um esporte muito em voga na época). Apolônia, uma Diácona, foi apanhada pelo populacho e, como ela se recusava a renunciar a Jesus e a sua fé, foi cruelmente torturada. Seus dentes foram arrancados com uma torquês, quebraram seus maxilares e levaram-na a uma pira, onde veio a morrer queimada. Abaixo, a descrição de um transeunte no tempo e espaço:

"Eles amarraram esta preciosa virgem, quebraram todos os seus dentes com socos nos maxilares, fizeram uma fogueira e ameaçaram queimá-la viva, mas ela continuava recusando a recitar as blasfêmias que eles queriam que ela recitasse (provavelmente mesmo que ela quisesse recitar qualquer coisa, não sairia). Então, de repente, ela mesma entrou na pira e foi logo envolvida de um fogo do "Espírito Santo", pois de lá de dentro ela nos olhava com o rosto de uma cristã sem nenhum medo.”.

Os anais de seu martírio contêm outras crueldades, mas, na liturgia católica, ela é representada segurando a pinça usada em seus dentes, tendo-se tornado a padroeira oficial dos dentistas e sendo invocada contra a dor de dente. Pra quem acha os X-men grande coisa, recomendo a leitura da vida dos santos e mártires da cristandade (aquilo que era mutante!).


* O título, para quem não perde tempo com as mumunhas das artes, refere-se a um hipotético zangão que, depois de uma longa fase abstrata, retorna à figuração, desenha uma santa, e morre (romanticamente, tipo século XIX) apaixonado pela mesma.

A. Hilzendeger Feltes (Parte 2)

Foto de rua próxima à Confeitaria Real,
de propriedade de Feltes, no final do século XIX.


O Cine-Theatro Metropolitano foi a realização de um sonho de juventude de Feltes. Cada detalhe de sua construção, em estilo jungendstil - que destoava dos tradicionais prédios neoclássicos da cidade, foi cuidadosamente administrada por Feltes. O Cine-Teatro é bem mais que um lugar ou uma atividade comercial, ele é, como Feltes deixa claro em suas correspondências para seus irmãos, uma parte dele mesmo. O homem pragmático e diplomático que administrava rigorosamente a Confeitaria Real, a construção do Metropolitano e os empréstimos bancários, vai dando espaço a um outro homem, que é seduzido pelo seu Cine-Theatro, pela possibilidade de ser dono de uma “sala da arte do silêncio”, nome pelo qual eram chamadas as salas que exibiam os filmes mudos. O Cine-Theatro Metropolitano é inaugurado no dia 16 de dezembro de 1916, no bairro floresta (distante do local dos tradicionais cinemas da cidade), com a orquestra do professor Costa Dourado (nos sábados os filmes eram acompanhados de uma pequena orquestra e, durante a semana, apenas ao piano). O elegante Cine-Theatro, com sua sala de espera com cafeteria (a primeira da cidade em um cinema), arrojada arquitetura e diversificada programação de filmes e atrações musicais seduziu a cidade. Grande parte do sucesso do Metropolitano advinha da relação estabelecida entre Feltes, através de seus irmãos, e a UFA (abreviação de Universum Film Aktiengesellchaft), o maior estúdio alemão no período. O auge do expressionismo alemão e as epopéias populares históricas, como “Madame Dubarry”, de Ernest Lubitsch, foram os principais personagens da fama do Metropolitano. No mesmo ano da inauguração do Metropolitano, nascem as gêmeas Josefina e Carolina Egon Feltes.

Foto gentilmente cedida pelo Museu Hipólito José da Costa

Winsor McCay



A cama, que é espaço para auto-esquecimento (sono profundo), ação introspectiva (sonho REM) e ação (leia-se fuque-fuque), é também o mote para um dos maiores clássico instantâneos da historia da arte: Little Nemo in Slumberland (surgido em 1905). Quando Winsor McCay (1869-1934) começou a publicar no New York Herald, este cavalheiro não só transformou um formato que ainda engatinhava, o dos quadrinhos, no que ele seria até agora (103 anos depois), como soube explorá-lo como ninguém. A densidade das historias, a ocupação gráfica da folha, seu clima lírico opressivo, o esplendoroso traço e o frescor surrealista das aventuras (lembrando que faltavam 20 anos para existir o surrealismo), tudo conspirava para transformar Little Nemo em um dos mais prazerosos vícios conhecidos.

Saquem seus cartões de crédito:
http://www.amazon.com/Little-Nemo-1905-1914-Winsor-McCay/dp/3822863009
http://www.amazon.com/Best-Little-Nemo-Slumber-Land/dp/1556706472

Winsor Beuys


O post acima é uma referência à homenagem que prestamos ao Little Nemo de McCay em ZEDE ETES - O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes. Na verdade, a homenagem é na linha Marvel “o que aconteceria se...” Winsor McCay se transformasse em Joseph Beuys.

Foto: Laura Cattani

Mas quem diabos é A. Hilzendeger Feltes? (Parte 1)


Foto feita pelo retratista Otto Schönwald

Em 1907, aos 21 anos, o Sr. A. Hilzendeger Feltes, se estabelece em porto alegre, vindo de Berlin, na Alemanha, para tentar uma nova vida no Brasil. Depois de um difícil começo, a Confeitaria Real, aberta por Feltes, prospera, deixando-o em condições de trazer sua esposa Anna Egon Feltes no ano de 1912. Neste período, o Sr. Feltes se integra à comunidade alemã local e torna-se um bem relacionado homem de negócios. Seu interesse por cultura, no entanto, o leva a ambicionar um empreendimento no qual ele acreditava que teria mais satisfação pessoal. Ele se mantém atualizado sobre pintura, literatura e cinema na Europa, através de intensa correspondência com seus irmãos, Karl e Reinhard, enquanto almeja a criação de um Cine-Teatro, prospera atividade comercial e social na provinciana Porto Alegre da década de 10. Sua amizade com os irmãos Petrelli e Hirtz, proprietários de diversos cinemas na cidade, são o suporte para o nascimento do Cine-Theatro Metropolitano.

10 cm²


Quimera Predatória 1 - Foto: Laura Cattani


A megalomania modesta (oxímoro?) é um dos infinitos defeitos dos quais o Grupo Ío padece. Apesar de consciente deste e de tantos outros, não necessariamente conseguimos mudá-los. Logo, independentemente da complexidade e do envolvimento necessário para viabilizar, realizar e produzi-los com os recursos disponíveis, os projetos são sempre intrincados, com inúmeros desdobramentos. Por isto, a participação no Salão 10x10 (medida em centímetros), da Fundarte, foi extremamente divertida. E, como diria o Oswald, alegria é a prova dos noves. Acima e abaixo, os minúsculos filhos.


Vigília Mecânica - Foto: Munir Klamt

Luas de Urano

Calíope - Com seus globos oculares em constante mutabilidade ou evolação (verbo evolar), já teve em seu olho direito desenhos que lembravam uma galáxia espiralada. Foto: Laura Cattani


Luas de Urano (Episódios 1-14) é uma peça sobre uma das Luas de Urano (óbvio). A lua em que se desenvolve a narrativa em questão chama- se Miranda, que é filha de Próspero da peça A Tempestade de Shakespeare (cada lua de Urano tem o nome de um personagem feminino de Shakespeare). Esta peça faz parte do que, informalmente, chamamos de Trilogia Negra.
A primeira parte é sobre Miranda + mixomatose (doença altamente contagiosa em coelhos) + Fibonatti (e a relação áurea da reprodução dos Coelhos) + 184C°negativos + condicionamento pavloviano + toxoplamose e acidentes automobilísticos + café... e por aí vai.
A segunda parte se chama 40 dias e é sobre os soldados Romanos e a consciência de ter feito um grande equívoco ao crucificar Jesus (ou não).
A terceira, chamada Ponto Cego, é sobre a fisiologia dos olhos e episódios que envolvem a cegueira. A musa inspiradora desta trilogia é Calíope, nossa gata (Calíope é o nome da musa inspiradora da poesia épica na mitologia grega).


Arena, Bibiana Coronel


Em uma apresentação do SAÍDA DE EMERGÊNCIA, dentro de uma tentativa frustrada de coletivo que se chamava Teratonia (2004), em parceria com Club d’Essai e Sons Transgênicos (a esta tentativa somou-se posteriormente Temper Faktor e Pan&tone - a idéia era unir grupos que tivessem afinidades estéticas e outras semelhanças para criar uma “cena”) Bibiana Arena Coronel fez uma apresentação vigorosa de sua dança de impacto. A curiosidade mórbida do fato é que, no período, a moçoila apresentava-se no Hospital Psiquiátrico São Pedro em uma peça com texto de Hilda Hilst. O cenário acidentado do local, somado a um tombo espetacular, proporcionou a B.A. Coronel algo mais do que um hematoma na coxa. Quem é dado à mitologia grega poderia ser persuadido a se lembrar da história da gestação de Dionísio na coxa de Zeus, porque era o que parecia o inchaço. Doía só de olhar, ela dançando e se jogando contra as paredes era só um adendo masoquista (ou de ética de trabalho, como preferirem). Estamos trabalhando para reintegrar a Bibiana à cidade (ela cumpre pena de estudos em Berlin) com um projeto chamado Luas de Urano (Episódios 1-14).

Sobre a exposição (ZH, 03/04/2008):

Foto: Anelise Garcia

Clima de sonho
"Zede Etes" começa hoje

Na Porto Alegre do início do século 20, o imigrante alemão A. Hilzendeger Feltes é o bem-sucedido proprietário de uma confeitaria e de um cine-teatro no qual se orgulha de exibir filmes expressionistas. Até que sua vida cai em desgraça.Feltes perde mulher e filhos para a Gripe Espanhola, tem um irmão caçado pelos nazistas, fecha o cinema. No letreiro despencado, sobram - do nome do proprietário - apenas as letras ZE_DE_E_TES. Os vizinhos passam a acreditar que, lá, se projetam sonhos e pesadelos.Essa história, com tudo o que há nela de real e ficção, dá o mote para a exposição Zede Etes - O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes, que será inaugurada hoje à noite no porão do Paço Municipal, a chamada Prefeitura Velha, no Centro. Os autores - os artistas plásticos Laura Cattani e Munir Klamt, que se apresentam como Grupo Ío - fazem questão de manter a dúvida sobre o que, ali, é invenção. Também não pretendem esmiuçar essa história para os visitantes.- Sempre deixamos uma margem aberta - sublinha Laura. Na prática, o que o visitante vai encontrar é um clima múltiplo - e carregado. Há ruídos, luzes, vídeos e objetos estranhos. O clima tende ao mistério, flerta com o horror.Para quem quiser acompanhar melhor as desventuras do alemão Feltes, há um site oficial no qual se conta seu drama - www.grupo-io.com - e no qual se pede aos leitores que contem sonhos. Um deles pode entrar na próxima exposição.
ZEDE ETES
Exposição do Grupo Ío
Porão do Paço Municipal (Praça Montevidéu, 10), fone (51) 156
Abertura: hoje, às 19h. Visitação até 2 de maio, de segundas a sextas, das 9h às 12h e das 14h às 18h. Entrada franca.
O Grupo Ío, formado pelos artistas plásticos Laura Cattani e Munir Klamt, recorre a várias linguagens - vídeos, projeções, sons, fotografias e objetos - para recriar o universo onírico e sentimental de um homem marcado pela tragédia.
Site:
www.grupo-io.com
Preste atenção - No clima de sonho e medo que pretende arquitetar, o Grupo Ío incorpora os ruídos da tubulação de ar-condicionado que percorre o porão do Paço.
Dica ZH - Só pelo lugar, já vale a visita à exposição Zede Etes. O porão do Paço Municipal, a chamada Prefeitura Velha, é um espaço ainda pouco conhecido, mas muito impressionante, com suas paredes em arco, tetos rebaixados, vãos e recintos. O prédio é de 1901 e foi tombado pelo patrimônio histórico municipal em 1979. O porão foi recuperado na reforma de 2003.



Link da matéria:

Primeiro de Abril

Laura Cattani e Crosa com seus circuit bends. Foto: Munir Klamt

No dia 1 de abril de 2004, o Grupo Ío fazia sua estréia com uma apresentação do espetáculo SAÍDA DE EMERGENCIA no Instituto Goethe.
Durante o processo de desenvolvimento do espetáculo ZEDE ETES (pronuncia-se Zêde Étes), e em parte influenciado por suas dificuldades de realização, surge o SAÍDA DE EMERGENCIA, que é um espetáculo homeopaticamente claustrofóbico, fortemente musical, com dança e vídeos. A formação desta apresentação era, além de Laura Cattani e Munir Klamt, Guilherme Klamt, Fabrício Prado, Bibiana Arena Coronel e Desirée Marantes como convidados. A temporada seguinte do SAÍDA DE EMERGENCIA (2006) contou com Carlos Bica e Crosa. Sua formação atual inclui Tiago Neumam e Nando Barth. O SAÍDA DE EMERGENCIA gerou um gêmeo isquiópago, o espetáculo Autochoque, que versa sobre acidentes de veículos automotores, suas ondas de choque e, claro, humor negro.

Montanha com Rodas

Laura Cattani como a personagem de Montanha com Rodas, no espetáculo Zede Etes
Foto: Munir Klamt

Quando eu tinha um ano e uns acréscimos, eu estava dormindo tranqüilamente no conforto de minha cama quando fui levado para um trem (Porto Alegre-Ijuí). Eu só acordei com o movimento do trem dando a partida. Apavorado, (racionalmente pensando: casas só andam com deslizamentos, inundações, choques de caminhões ou deslocamento de placas tectônicas) eu afirmei para minha mãe:
A casa tá andando!
Por anos, o conceito de uma casa que andasse me fascinou (meu pai comprou um trailer logo depois). Eu representava graficamente esta idéia através de uma montanha com rodas e passageiros em seu conteúdo. Algo como um bunker móvel. Em 2005, no espetáculo Zede Etes, uma das partes apresentava uma montanha com rodas (vide foto). E, na quarta parte d`O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes, chamada Máquina de Presságios, há um vídeo sobre o assunto. Porém todo este comentário é apenas para fazer uma homenagem póstuma.
Na música da tal Montanha com Rodas era usado um sampler de quatro ou cinco notas de Hans Otte, recentemente falecido. Ouça Das Buch der Klange, disco usado no sampler (tem no emule).

Outro Disco:

Em arte, tudo é processo.

Duchamp como grande Satã com espuma na cabeça e cãs.


Em 1971, Gerald Mayo entrou com um processo no tribunal regional da Pensilvânia contra Satã e seus asseclas, afirmando que ele tinha colocado obstáculos de grande monta em seu caminho, que causaram sua decadência. Em 3 de Dezembro, a reclamação de Mayo foi negada, sob a alegação que o acusado não residia na Pensilvânia.



Mais Marimbondos

Lendo sobre marimbondos, em um guia rural, iluminei minha infinita ignorância* sobre seus hábitos alimentares. Os mesmos são predadores de formigas, aranhas e cupins (logo, suponho que a ocupação da cachopa citada no post anterior seja uma forma de ironia das formigas). Na exposição ZEDE ETES - O Estranho Equívoco de A. Hilzendeger Feltes (nome com pendores a capítulos de “Cândido” de Voltaire) há um trabalho com o nome de “O Diabo Está Nu Atrás Da Porta” este trabalho pode ser chamado de um ready-made modificado animal (o “nu” do titulo é uma brincadeira com “Nu Descendo Escada” de M. Duchamp). Cupins consumiram o miolo de uma porta até que surgisse a imagem de um demônio, visível quando incide luz por trás da mesma. Em uma citação de iconografia medieval (acho que é isto que é o mundo pós-moderno), os cupins nos brindam de forma sarcástica com uma imagem dos nossos mais profundo temores ou (como dizem os céticos) é apenas coincidência. .


*Cito aqui Blixa Bargeld dos Einstürzende Neubauten para quem só há duas coisas infinitas o espaço e a ignorância (nunca entendi se ignorância em relação a conhecer todas as coisas ou ignorância como qualidade humana com vetor negativo mais presente na história)

Convívio Social

Foto: Anelise Garcia

Um elemento que compõe uma das obras da exposição é uma respeitável cachopa de marimbondos, que foi encontrada em uma casa secular desocupada no interior de Garibaldi (vide foto). Ao tirarmos, com a devida apreensão, a cachopa da sua posição original, ela estava tomada por formigas em uma busca de remanejamento residencial. A imagem e o som daquela profusão de insetos em movimento nos causou aquele fascínio que enxames causam em nós, criaturas teoricamente individuais. Um tipo brando de Formicofilia. Imediatamente as amigas sinapses remeteram-nos à mão com um furo tomada de formigas do Cão Andaluz, de Buñuel (3:48).

Porém, apesar do fascínio, é importante lembrar que conviver com uma superpopulação de formigas, em um apartamento no centro, é uma grande prova de cordialidade. Há dias venho tentando convencê-las de não explorar fora de sua zona residencial - claro que com argumentos físicos.